domingo, 12 de outubro de 2025

Respondendo a perguntas - Parte 2

Perguntou a Cláudia:

Porque motivo és tão ligada a Deus? É mesmo da educação que tiveste (eu andei na catequese e apesar de sentir que tenho ligação e falo com ele todos dias, não sigo nem metade das "regras" e discordo da maior parte do que dizem e se me perguntarem, sim, sou católica, mas nada praticante, lá está) ou de algum "trauma" que te fez ir buscar algo a que te agarrares?

Porque eu preciso de ter alguém que me ouça.
Essa é essencialmente a resposta.

Acreditar que, sempre que solto algo do coração, Deus ouve e acolhe o que eu digo. Não é uma conversa que eu ouça resposta do outro lado, ou conselhos, é uma conversa que eu solto, intima, e fico mais leve.

Às vezes o meu rezar é só chorar e Deus não me diz nada, e se chorar à frente de alguém? 

"oh não fiques assim,
não chores, 
isso passa, 
mas isso é razão para estar assim?"

Portanto, Deus/Jesus ouve, leva o meu peso. E não tenho julgamentos ou respostas, e isso se calhar neste processo de ser próxima de Deus, é o melhor. Não ter nada.

Há uma coisa que eu gosto muito de imaginar, fecho os olhos, e é um jardim imenso de relva e tem lá um banco, eu apareço sempre de frente para esse banco, a vir de trás, ou seja o banco está de costas para mim, e tem Deus sentado e eu aproximo-me, dou a volta ao banco e digo "sou eu outra vez" "hoje posso só deitar-me no seu colo?"
E fico a imaginar-me a ser acolhida. Normalmente nesses dias são os que apenas choro e não digo/penso/peço nada.

Esse algum "trauma" que falas, talvez seja isso, a falta de um colo.


Não sou de Deus por educação, respondendo muito honestamente à tua pergunta. Já vos disse, quando o meu pai faleceu afastei-me da igreja e só voltei 4 anos depois. Uma das coisas que mais me doeu foi os gritos do meu pai no dia que foi entubado para ser alimentado. Isso afastou-me completamente. É uma dor que..., uns gritos que tenho gravados na minha cabeça, que sinceramente de cada vez que me lembro me vou abaixo das pernas, e não estou a gozar ou a exagerar. Naquele dia, nós como sempre tínhamos ido visitá-lo, estávamos à espera na sala de espera daquela ala, que era ao fundo, na entrada, à espera da hora da visita pra entrar no quarto, eu levantei-me e fui ao corredor esticar as pernas só, vi os enfermeiros e auxiliares entrarem no quarto dele, e passado uns minutos uns gritos... foi horrível, só me mexi para ir fechar a porta da sala de espera, para mais ninguém se aperceber que era ele. 
Hoje em dia, quando há uma situação que me queixo, ou que me sinto mal, eu vou ali, àquele corredor, àqueles gritos, para perceber "que estou a exagerar". Aquele momento marcou-me muito.

Muitas vezes pergunto "onde é que estavas Deus?" porquê a nós e porquê a ele. (?)

Porque é que a minha mãe tendo 3 filhos mais velhos que eu me chamou a mim para lhe escolher o caixão? (é horrível escolher um caixão, a dimensão que isso traz), porque é que depois de o ver a ele a não me reconhecer nos últimos dias, fui eu que passei pelo processo todo... ? 
(Vê bem que fui eu que o fui reconhecer na morgue, e eu apaguei isso da minha cabeça, simplesmente não tenho uma única imagem desse momento, de entrar, de lá estar, de sair, nada, foi inclusive a minha mãe que à uns tempos falou nisso e eu perguntei "mas fui eu???", apaguei por completo. Esse momento não existe na minha cabeça nem nas minhas recordações. Trauma? pode ter sido.)


Deus lembra-me da história de Jesus, sim, eu também cresci na catequese, e também não sigo "as regras" como tu Cláudia, mas o cristão é básico, sabe que Deus deu o seu único filho ao mundo, não é preciso saber a bíblia toda (embora saiba muitos dos enquadramentos históricos claro), apenas isso, Deus deu o próprio filho em testemunho, e haverá dor maior que essa?

As nossas dores são então isso mesmo... parte do nosso processo cá.

Há muita coisa que não entendo... muitas, mas tal como comecei este texto, eu preciso de alguém que me ouça e que não me diga nada.
Eu preciso de colo que não me seja recusado.
Encontrei isso em Deus outra vez, sem censuras. 

Há regras para falar com Deus? muitos dizem que sim, a partir do momento em que eu entendi que falando com Ele, eu me sentia bem e aliviada, entendi que isso não podia ser errado, essa era sim a minha forma de Lhe rezar, de Lhe ser seguidora, de Lhe ser mais uma das ovelhas do Seu rebanho. Afinal rezar tira peso, e se eu em conversa liberto esse peso, então o meu "rezar" também é valido.

Portanto, não, eu não acho que tenha nada a ver com a educação na igreja, até porque me afastei totalmente durante 4 anos, e se a educação que recebi na catequese e em casa ao ir a missa e etc cá tivesse ficado e registada eu não me tinha perdido durante 4 anos. Eu sou ligada a Deus porque precisei, e acho que esta resposta me surgiu exatamente no mesmo momento que li a tua pergunta e falaste em "trauma", sim, eu precisei, de ser ouvida, de ser acolhida e de colo. Não tive físico, tive assim, na minha cabeça, naquele banco de jardim onde vou tantas vezes chorar em silêncio mas imaginando a proteção de Alguém que me abraça.

E foi esse Alguém que me deu a possibilidade de viver no mesmo tempo que o meu filho. Na quarta-feira tive uma noite difícil e quando acordei tinha o meu filho com uma mão completamente aberta em cima da minha cara e a dar-me mimo para cima e para baixo, era uma hora que ele nunca está acordado, mas estava ali, num conforto que eu entendi e disse logo "é isso Deus, obrigada" e o pirolito adormeceu. Há pequenas coisas que vamos apanhando como respostas, como o "Eu Ouvi-te, fica descansada". E só. Ou assim queremos acreditar.

Acredito.

E tento ser boa, justa e real. 

É isso... é isso que me liga e me faz acreditar. Porque preciso.

Parece uma resposta básica, simples, mas são aceitações durante o caminho, são pouco mais de 30 anos com muitas dores, não parece porque não passo para fora, mas são...

Falo aqui só da situação do meu pai, (que acho até que foi a situação que me afastou totalmente de Deus e da Igreja durante aqueles anos e acabou também por me retrazer novamente de um modo totalmente diferente ao caminho de Deus) mas já tive muitas outras situações difíceis e sim, Deus segurou-me.

12 comentários:

  1. Olá!

    Apesar de não comentar muito, venho cá todos os dias, mas o sacana do telemóvel não deixa comentar blogues :-(

    A nossa relação com a Igreja/Deus é algo muito pessoal e que, acredito, vai evoluindo com a vida. Até porque as coisas vão acontecendo e parece-me natural questionarmo-nos. E lá porque ontem essa relação não era muito pacífica, não quer dizer que amanhã não melhore. E termos juízo critico em relação a tudo parece-me algo saudável (faz-me alguma confusão aquelas pessoas que aceitam tudo o que a sua religião diz como certa e única e não questionam nada. A verdade é que nós não sabemos quem tem razão...)

    Beijinhos

    P.S - voltando um pouco atrás já consideraste pedir ao médico de família para fazer os testes de intolerância à lactose? Eu sempre sofri horrores em ir à casa de banho e desde que fui diagnosticada com elevada intolerância à lactose, adaptei a minha alimentação e passei do 8 para o 80. A minha qualidade de vida disparou. Ah e eu fiz num hospital público e custou cêntimos, em 2015-2016...

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    1. É sim, é mesmo algo muito pessoal. Cada um de nós sente como deve sentir.

      Também passo no teu blog, penso que eras quem escrevia o diário da assalariada não era? tenho saudades daquele cantinho.

      Eu não bebo leite, e derivados então também é raro, é mais o queijo e pouco até, associei mesmo à questão nervosa. Tenho andado bem agora. Felizmente.

      Obrigada e beijinho :)

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  2. Interessante... precisas de alguém que te ouça.
    Entendo perfeitamente.

    Fui fazendo esta resposta à medida que fui lendo e porra, é que é mesmo isso! Eu agradeço todos dias o que tenho e o que há-de vir e quando peço ou falo dos meus planos, é um bocado como tu... Porque a contar a alguém físico, não entenderiam, desmotivavam, gozavam, sei lá... Então prefiro assim.

    Essa falta de colo faz todo o sentido. E agradeço desde já a tua partilha e ao mesmo tempo desculpa por estares a reviver essa situação :/

    E deixaste-me sem palavras com o resto do texto.

    Só para terminar, não ter um colo físico, hoje em dia com o meu filho, consigo notar na falta que a mim, Cláudia, me fez. E na quebra que quero dar a esse padrão.

    E texto básico? Vi aqui um texto carregadinho de sentimento, profundidade e uma energia do caraças.

    Mais uma vez desculpa e obrigada!

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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    1. Não tens nada de pedir desculpa, descrevi a minha forma de ver as coisas, para que cada um entenda que pode sentir da sua forma.
      Deus também é isto, a liberdade.

      Um beijinho para ti :)

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  3. Também eu me afastei em 2021 aquando do falecimento do meu pai, passamos por algo parecido, eu em plena pandemia, só pedi para me despedir, ele ligado às máquinas sem sabermos por quanto tempo...foram poucas horas mas pareceu uma eternidade e a pergunta sempre lá "Porquê meu Deus, porquê agora?" Aos poucos e poucos fui regressando, agradecendo pelas coisas boas e pedindo para que não me leve mais ninguém nos próximos tempos. Todas as semanas à segunda e à sexta peço para que olhe pelo meu filho nas viagens de casa para Coimbra e de Coimbra para casa. A
    semana quando fui fazer a colonoscopia, tudo corria mal, era o tubo que devia insuflar ar que não funcionava, era o programa do computador que deveria tirar as fotos das zonas principais do intestino que não estava a trabalhar, e sim, aquela equipa já tinha feito 6 colonoscopias, com os mesmos aparelhos, naquela manhã. Comecei a pedir a Deus, Nossa Senhora e às minhas estrelinhas, devia ir na segunda Avé-Maria e de repente tudo estava a funcionar. Coincidência ou não, o que é certo é que fiz o exame e não houve mais stresses até estar terminado.

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    1. Deus tem uma forma engraçada de nos mostrar as coisas não é?, primeiro lá nos assusta e depois lá no sossega em mostrar que nos ouve.

      Importa que cada um confie.

      Bem que imagino Marisa, esse pedir pelo seu filho sempre que viaja para e de coimbra. É o coração nas mãos, assim acredito.

      Beijinho

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  4. Olá!
    Como sabes, sou totalmente ateia mas achei a forma como interages com Deus muito bonita. Também eu senti muita falta desse colo por tudo o que vivi após a morte da minha mãe, infelizmente, a minha incredulidade e racionalidade nunca me deixou acreditar, talvez pela minha veia cientista e com total racionalismo com que vejo a vida. Se não me provam com A + B = C que existe, então não acredito. E nem imaginas o quanto eu gostaria de acreditar. Acreditar que existe algo para além do mundo no qual vivemos, acreditar que alguém olha por nós, seja esse tal Deus, ou para quem acredita, os nossos parentes que falecem. Seria sem dúvida um conforto enorme sentir isso porque acredita, quando o meu pai faleceu, eu dei por mim aos 35 anos sem pai nem mãe e o que mais sentia era o desamparo. Apesar de todas as falhas do meu pai, de eu também não saber o que é um beijo ou um abraço (nem da minha irmã, por exemplo), sentir que ele partiu foi tirarem-me a possibilidade (quase inexistente) de um dia podia vir a ter isso, e acho que foi mesmo o que me custou mais a encarar.
    Também gostava de ter assim alguém com quem falar e desabafar sem julgamentos, sem respostas, sem nada, mas lá está, não consigo. Tenho o meu psicólogo, que é o mais próximo que encontro desse ser que ouve sem julgamentos.
    Ainda bem que tens essa relação tão bonita com esse teu DEUS.
    Beijinho

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    1. E tenho-vos a vocês todas por aqui :)

      Também me ajudam bastante, de verdade.

      Imagino... 35 anos e ser só no mundo, sem ter a origem, deve ser duro sim. Muito. E lamento...

      Sobre ter alguém para falar e desabafar sem julgamentos, mesmo que não seja para o mesmo Deus que eu falo, fala Inês, fala para ai com as paredes xD, tudo ajuda, quanto mais não seja a largar o peso.

      Beijinho

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    2. Ainda bem que te sentes reconfortada por aqui também. E tenho pena que limites o que publiques por causa de pessoas mal amadas.
      Agora que falaste de desabafar com as paredes, a esse ponto ainda não cheguei mas falo muito com os meus cães. Eles também ouvem sem julgar, e têm sempre uma lambidela para nos reconfortar... se calhar são o meu "Deus". E sim, não é fácil não ter pais. Lá está, o meu pai falhou muito e despachou-me para os meus avós e magoou-me muito, mas sei lá, sendo ele vivo tinha sempre ali a quem recorrer. Agora fico por conta própria, é um sentimento meio estranho de descrever sequer...

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    3. Olá Inês, bom dia
      consigo compreender, é como se mesmo com as coisas más, sabias que ele estava ali, um telefonema, uma visita, um pedido de ajuda e ele existia.
      E agora não... é triste mesmo, pensar, quanto mais viver.

      Se calhar são mesmo o teu Deus :) vá-se lá saber, boas companhias são, muitas vezes melhores que pessoas.

      Beijinho

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    4. Bom dia.
      É mesmo isso que descreves. Ele estava ali. Nos últimos tempos, a dar imenso trabalho com todas as doenças e consultas e tratamentos, mas estava ali. E depois nas pequenas coisas parece que é onde se sente mais. Tenho um excel com as listas de presentes de aniversário e natal desde há anos. No ano passado tive de apagar o nome do meu pai da lista e custou tanto. É uma coisa sem importância nenhuma mas mexeu comigo.
      Com os animais, sim, se calhar são eles o meu Deus. Acredito muito mais neles do que na maioria dos humanos e acredita que os amo muito mais a eles do que a maioria dos humanos. Sei que há muitas pessoas boas por ai, mas os animais têm uma pureza que é difícil encontrar nos humanos. E dão-nos tanto, mas tanto, sem nunca pedir nada em troca...

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    5. Olá Inês, boa tarde
      Sim, os animais conseguem ser mais sensíveis e amigos que muita gente, isso é uma grande verdade.

      Beijinho

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E a pedido vosso, aqui fica a ementa desta semana :) Cozinhamos sempre ao jantar para que dê para o jantar do próprio dia + almoço do dia se...