quarta-feira, 18 de março de 2020

Hoje, todos sabem que existem (mas sempre existiram)


Hoje venho falar-vos do outro lado, dos que estão ali, equipados até ao pescoço de boa vontade, de querer e fazer.
OS MÉDICOS.

Tenho uma pessoa importante na ala de Pneumologia de um dos hospitais de Lisboa. Tinha o sonho, quando as nossas vidas se cruzaram, de ser cirurgião, hoje é médico escalado para as viaturas de inem e médico de Pneumologia. 

É evitado o contacto telefónico, não vê, não atende, não lê e muito menos escreve... A vida é isto. Está longe de casa, da mãe, do pai, dos amigos... e de tudo o resto. De mim.

Em 2010, quando nos conhecemos tinha uns olhos de esperança. Vivia de noite. Era a escuridão que o fazia estar concentrado.

Hoje a esperança está nos meus, e nos de quem o conhece. Temos medo por ele, e pelos colegas com que se cruza pelos corredores.

Eu sei, ele está no meio do mundo dele, de exames específicos de uma área que ele quer dominar, as vias aéreas inferiores. 
Eu sei, ele estará bem e daqui a meses regressa às suas terras, onde descansa, onde se suporta quando chega e a quem o vê chegar.
Eu sei, por muito que se canse e que o próprio corpo comece a falhar, a cabeça vai andar sempre em redor do mesmo assunto, sempre em prol do bem dos outros.

Eles, os médicos, sabem o que são as cores do hospital, conhecem-nas e nem é pela tonalidade, é pelo tacto, de quando lá encostam para se preparar para confrontar as famílias, com palavras técnicas, que sabem que carregam findar de histórias familiares. Eles optam. E eu sei, eles amam o paciente como um avó, um pai, ou um irmão. Eu já vi. Já vi com os meus próprios olhos. E já senti. Há uns anos um enfermeiro disse-nos "não me recordo de família igual", e isso grava tão fundo, que não há nada que se possa fazer para esquecer. Eles, os médicos, estão lá todos os dias. A ver resultados, e a ver novamente, a pousar papeis e a pegar de novo para ler melhor e só depois concluir. Maioritariamente, eles sabem o que fazem. São responsáveis. Carregam semblantes, que quem vive pelo meio deles já os conhece, já os sente ao longe e já imagina as histórias "do dia".

Eu tenho um particular respeito ao médicos do Hospital dos Covões - Coimbra, que sem dúvida é um hospital do ser humano e aos do Hospital Universitário também de Coimbra. Dois hospitais do centro preparados para receber a COVID-19. Eu não sei o que foi que chegou ao mundo, se é doença, se é balanço na economia, mas seja o que for está a tirar-nos as pessoas de nós. De vários modos.

Li uma noticia à uns dois dias, que dizia que era impossível termos 331 casos, quando os médicos já apresentavam TANTO cansaço, que ou já éramos + de 4.000 casos ou os nossos médicos estavam muito mal preparados. Não sei se ri, se chorei. Ando sensível e irritada. Eles não estão mal preparados, eles estão, sim, horas a fio a tentar estudar o caso, a ver exames como quem os lê, a voltar a ver e a ver e a ver. Passam horas sem falar com a família, e quando as noticias chegam são de mensagens às 4 e 5 horas da manhã. Médicos em quarentena, sem protecções individuais ...  Não são eles que estão mal preparados, somos nós, os que ficamos de longe a olhar para eles, por eles, e acreditar que isto passa. Somos nós que não conhecemos os hospitais por dentro. Somos nós que ainda saímos à rua a pensar que isto é manobra de circo do governo chinês.

Não sou alarmista, mas estou cansada, precisamos ficar em casa pelo bem de todos, principalmente deles, dos médicos.

Em Lisboa só o conheço a ele. Não conheço as faces interiores daquele hospital, nunca quis entrar, mas conheço os dois de Coimbra que já mencionei, bem como o Hospital militar de Coimbra. Não, não vivo nos hospitais e não, não estou doente. Mas dos 3 hospitais de Coimbra tenho histórias, tenho rostos, memórias e cheiros.

As equipas médicas são pessoas como nós, só diferem numa coisa, enquanto nós choramos em pranto à porta das salas de internamento, eles choram quando entram e caem no chão ao fechar a porta de casa. Independentemente da hora.

Respeitem-nos, eles precisam de nós, e nós deles.

Quem é de Lisboa ou de centros com muito aglomerado populacional, não saiam de casa. Por favor respeitem.

(Não sei quando vou voltar a escrever. Pode ser amanhã, pode ser daqui a 2 meses. Não acreditem em tudo o que vêm. Quem tem doentes oncológicos, doentes cardíacos, doentes tensão arterial, fumadores - Não visitem!).

Vamos ser conscientes, hoje todos sabemos que eles existem, mas eles sempre existiram. E o código de honra deles, é igual ao teu quando te assumes no teu trabalho a fazer o melhor que sabes e que consegues.

Não os estou a defender, não a ele em particular, erros médicos existem, mas eu já vi morrer pelas mãos deles, e é por esse motivo que a cada dia que passa sei quem são e porque o são.

8 comentários:

  1. Bonita dedicatória e forte ao mesmo tempo... pensei no médico que nos trouxe as notícias da minha falecida avó.

    Não percebo porque criticam tanto os médicos... Enfim. É como dizes, são pessoas, também erram. Se calhar com os que devem mesmo refilar, não refilam.

    Força, coragem, tentar ter calma e tudo vai passar.

    Beijocas <3

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  2. Adorei o texto. Também tenho alguém que me é muito próximo médico de saúde pública. Precisamos de os respeitar e respeitar as suas indicações, porque é essencial para todos.

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  3. Também tenho uma tia que foi chefe de enfermagem em Lisboa dezenas de anos, agora está reformada, e está sempre a dizer..."tenham cuidado, não saiam de casa..." cheguei a ir com ela quando ela fazia noites no São José e havia noites muito complicadas. Deixa-me acrescentar em relação a Coimbra o IPOFG, quem lá teve doentes sabe o quanto eles são carinhosos e preocupados. Só ajudamos a travar isto ficando em casa...

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    1. Verdade Marisa, temos equipas médicas maravilhosas, excelentes seres humanos.

      Beijinho

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  4. O que eu tenho pena é que seja preciso haver estas tragédias para percebermos que TODAS as profissões são importantes. Cada uma na sua área. E que não podemos viver sem nenhuma.
    Hoje os heróis são os médicos, os enfermeiros, o pessoal técnico de saúde. Amanhã serão os operários das fábricas, os agricultores, os professores.
    Temos no nosso país excelentes profissionais em todas as áreas e é uma pena que não se valorize isso.
    A tua mensagem é uma bonita homenagem a todos os médicos.
    Parabéns!!

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    1. Verdade MA, esse é o problema, só nos lembrarmos de determinados quando deles precisamos.

      Somos todos precisos.

      Beijinho e tudo a correr bem por ai :)

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